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quinta-feira, 9 de fevereiro de 2017

Uma conversa sobre sexualidade e sexo

Como diz Simone de Beauvoir no seu livro Segundo Sexo ‘não se nasce mulher tona-se mulher’. Nós, seres humanos escolhemos a nossa sexualidade a partir das experiências e da reflexão sobre estas experiências.
       As primeiras experiências são de atração pelo que é agradável, gostoso, bonito e assim por diante, se dão na infância. Na infância as possibilidades de experiências de atração são amplas. Isto por que a criança não nasce com a sexualidade definida. A criança nasce com o sexo definido (masculino ou feminino). As experiências de atração, na infância não determinam uma escolha, mas sim, fundamentam-na.
       Por um lado, existem as experiências da criança na relação com seu próprio corpo e o corpo do outro. Desde o primeiro momento em que ela aprende a apontar seu olho, seu nariz, seu pé etc. Por outro lado, as experiências referentes ao afeto: reconhecer as pessoas, lembrar delas, gostar delas, sentir saudades.
       A sexualidade vai sendo construída então, como mais um aspecto da vida de uma pessoa. As descobertas em relação ao próprio corpo ocorrem ao longo de toda a vida humana, ao mesmo tempo em que o corpo modifica-se também mudam as possibilidades de viver as experiências sexuais. Por exemplo: uma mulher grávida e seu companheiro, a sexualidade vai mudar de alguma forma, mas, sempre vai depender do casal.
       Ser mulher, ser homem, ser uma mulher com atração por outras mulheres ou ser um homem com atração por outros homens?! Mesmo com uma experiência de atração sexual de uma mulher por outra, por exemplo, há um projeto de ser mulher articulados a um desejo de ser mulher que vai definir a escolha. Isto é, apesar da experiência de atração por uma mulher a escolha pode ser heterossexual.
       Mas o que é o projeto de ser mulher iluminado por um desejo de ser mulher? Ou um projeto de ser homem iluminado por um desejo de ser homem? O desejo de ser é o que se almeja do futuro: quero ser independente, quero ser seguro, quero ser linda, quero envelhecer dignamente ... O projeto é a realização deste desejo, isto é, quero ser sedutora então me visto como uma mulher sedutora, tenho gestos de uma mulher sedutora etc. Mas nem sempre o desejo de ser e o projeto de ser estão alinhados. Quero ser um homem seguro e amoroso com minha esposa, mas, na hora de sairmos a lazer fico emburrado e ciumento, faço ela trocar de roupa e se ela não troca fico em casa casmurro. Neste último caso o desejo é ser seguro, mas, o projeto é de ser ciumento, tendo como conseqüência vivenciar a insegurança.
       A sexualidade não pode ser confundida com o comportamento sexual. A sexualidade implica experiências de atração sexual, desejo sexual e práticas sexuais relacionadas a escolhas em dado momento da vida. O comportamento sexual refere-se exclusivamente a práticas sexuais em determinado período histórico ou grupo. Não há nenhum determinismo a não ser no que se refere a uma moral ou práticas compartilhadas por um determinado grupo sempre circunscrito pela história e pela cultura. O exemplo disto é uma nova geração que admite vivências e contratos de relação amorosa que era improvável em épocas anteriores.
       Escolher a sexualidade mais abertamente é uma possibilidade para esta geração que está aí. É importante fazê-lo criticamente, observando o projeto de ser e o desejo de ser.


segunda-feira, 23 de junho de 2008

Projeto de Ser, Desejo de Ser e Depressão

Um paciente disse-me certa vez quando lhe perguntei o motivo pelo qual me procurou “Sou como morto vivo, minha vida não tem mais sentido, não tenho ânimo para levantar-me pela manhã, não sinto nenhuma alegria no meu dia-a-dia”. A depressão é vivida pelas pessoas de forma muito diversificada, mas, há algo em comum entre estas pessoas, isto é, falta-lhes sentido na vida.

Depois de uma introdução destas cabe a pergunta “Desde quando esta falta de gosto pela vida lhe ocorre?” As respostas variam. Eis algumas delas:

Sra. viúva - “Bem, eu..... perdi meu marido faz alguns anos, desde então.....”

Sr. Cardíaco - “Quando o problema cardíaco começou, eu não pude viver mais do modo que vivia. Tive que parar com o futebol, depois agente fazia um churrasquinho, uma cervejinha... a mulher quer que eu largue o cigarro... brigamos por isso... sabe como é.”

Sra. Solitária - “Eu vivia para os filhos, para a família né... Nunca tive tempo para mim, eu sempre em último lugar. Agora foram todos embora. Se não bastasse os filhos... cada um numa cidade... ainda o marido me largou.... (choro)”

Srta. sem êxito – “Quero crescer profissionalmente, mas no mundo não há lugar para mim. Sou feia e chata...”

Estas queixas são todas fictícias, pois não se pode expor um paciente. Entretanto, de tão corriqueiras muitos dos que estão lendo o texto podem identificar-se com elas. O psicólogo, neste ponto, deve pensar qual a relação que este paciente estabelece com o seu futuro. Deve pensar deste modo porque o paciente com depressão estabelece uma determinada relação com o futuro, na qual este futuro não tem sentido. “Vejo-me só, sem ninguém, e assim permanecerei”, “agora com essa cardiopatia nunca mais vou divertir-me, então é melhor não fazer mais nada”. O futuro que este paciente almeja aparece-lhe como inviabilizado.

É possível superar a depressão. Em primeiro lugar, é importante pensar em perspectivas mais imediatas. O que é possível viabilizar neste momento da vida. Em segundo lugar, compreender que não é possível viver o que foi vivido no passado. Havia um projeto de ser neste passado, como por exemplo, ser mãe e esposa e cuidar da família; ter amigos, fazer festas, brincar, tomar cervejas, fumar, varar a noite. Entretanto, existem elementos deste passado que podem ser vividos de uma forma diferente. Portanto, em terceiro lugar, há um novo projeto que deve ser posicionado, ser mãe de filhos adultos e independentes, curtir com os amigos, mas sem aquelas extravagâncias etc.

A depressão ocorre a uma pessoa porque o ser-humano é desejo e projeto de ser. Desejo de ser e projeto de ser envolve a realização do desejo de ser no cotidiano. A encarnação do desejo é o projeto de ser. Na relação com o futuro desejado é que as ações cotidianas têm sentido, isto é, alimentando o desejo no dia a dia. Esta relação, com o que foi construído ao longo da história da pessoa e suas perspectivas de futuro muda, ao longo da própria história. Essa transição, em geral, apresenta alguma dificuldade. Mas, para algumas pessoas esta dificuldade aparece-lhe como inviablização do seu desejo. Ao sentir-se inviabilizada vai deixando de fazer algumas coisas, vai entristecendo-se, vai deixando de fazer ainda mais coisas até encontrar-se muito triste, sem ânimo para nada “sem sentido para a vida”.

O ser-humano não existe antes de fazer-se. Portanto, aí está o segredo. Fazer-se, quer dizer, abrir novos horizontes, novas perspectivas agindo nesta direção. Mesmo que no inicio seja difícil, com o acompanhamento psicológico adequado, o paciente supera a depressão, pois estabelece para si um projeto de ser, dentro das novas possibilidades que se apresentam em sua vida, que pode ser diferente do que foi, mas não menos satisfatória, ou quem sabe, ainda mais satisfatória.