quarta-feira, 4 de julho de 2012

A importância da psicoterapia ou acompanhamento psicoterapêutico para pessoas com doenças crônicas

        Denominam-se doenças crônicas àquelas que precisam de um tratamento a longo prazo tais como as cardiorespiratórias, câncer, distúrbios ostemucuslares, reumatismos, diabetis, sida etc. A psicoterapia ou o acompanhamento psicológico pode auxiliar o tratamento médico que as pessoas com doenças crônicas precisam fazer, principalmente a partir do diagnóstico quando efetivamente é necessário modificar aspectos fundamentais do modo de vida.

        A psicologia dispõe de fundamentação teórica e metodológica para oferecer suporte às pessoas em sofrimento bem como para auxiliar a superação do sofrimento.
         O conceito de corporeidade parece pertinente para nortear as ações técnicas que respaldam cientificamente um diagnóstico psicológico e a intervenção no caso do(a) paciente com  um doença crônica. Para fazer-se o diagnóstico psicológico - ou compreensão psicoterapêutica como preferimos chamar em fenomenologia existencialista - faz-se mister descrever a experiência psicológica referente a doença crônica, sobretudo, no que se refere as mudanças de modo de vida como, por exemplo, administrar o consumo de cigarro ou e álcool, fazer atividades físicas, administrar a medicação adequadamente, lidar com as dificuldades que o tratamento pode implicar etc.      
        A psicoterapia se baseia no método biografico que possibilita a descrição e a compreensão da "[...] história do paciente e suas vivências que são sempre ordenadas pela sua situação." (Silveira e Carminati, 2012) Nos casos em que a questão central trata-se de uma doença crônica, além da relação que o paciente estabelece com o mundo, com os outros, com o tempo é importante dar uma atenção especial a relação com o corpo ou corporeidade.O corpo é muito mais que o fisiológico, o corpo é uma totalidade orgânica e psíquica. Somente pelo corpo podemos nos lançar a determinados projetos e não a outros. Alguns projetos como gerar um bebê, por exemplo, estão amarrados a uma certa possibilidade orgânica.
Sartre (1997, p. 292) nos diz que:



[...] é verdade que o corpo pertence à totalidade que denominamos realidade humana como uma de suas estruturas. Mas, precisamente, só é corpo do homem enquanto existe na unidade indissolúvel desta totalidade, do mesmo modo como o órgão só é orgão vivo na totalidade do organismo.

Inicialmente, é fundamental ter a concepção sobre a corporeidade para compreender a experiência particular do doente crônico. O diagnóstico psicológico é a ação do terapeuta em que ocorre a compreensão do terapeuta da condição do(a) paciente. Para que a compreensão psicoterapêutica ocorra é importante conceber o movimento dialético de exteriorização-interiorização na constituição do ser do sujeito ou personalidade que é historicamente situada. São dimensões existenciais da situação do paciente que se modificam com uma doença crônica. Temos também que levar em conta que o próprio tratamento pode envolver mudanças relevantes como a perda da mama, limitações de movimento que precisam ser recuperados etc. 
Desta forma, é importante entender que dimensões do projeto de vida do paciente foram afetadas pela doença e pelo tratamento.O acompanhamento psicológico tem como objetivo geral oferecer certo suporte psicológico. Tal suporte visa que o paciente viabilize uma perspectiva de vida satisfatória observando seu estado de saúde.
         Ainda propõe alguns objetivos específicos tais como: contribuir para a superação das tensões, angusticas, receios e preocupações associados a sua saúde; ajudar o paciente a delimitar os aspectos físicos e psíquicos da sua condição; possibilitar que o paciente localize as mudanças de sua vida em função de sua saúde; reavaliar as pesrpectivas de futuro antes da doença; observar os limites impostos pela nova condição e verificar as possibilidades atuais e futuras de realização pessoal; refletir sobre as mudanças e possibilidades da vida em família, da vida amorosa, do lazer e do trabalho; oferecer suporte e orientação sobre a adesão ao tratamento tendo em vista a qualidade de vida.

         Neste sentido, é importante considerar que o diagnóstico médico de uma doença crônica afeta a existência do paciente. Como nos disse Sartre na citação acima, um órgão só existe na totalidade de um corpo. E um corpo só existe como corporeidade, isto é, essa totalização em curso entre orgânico e psíquico. Portanto, quando se trata do sofrimento relativo ao diagnóstico médico de uma doença são as dimensões existenciais do paciente que estão em em foco no diagnóstico psicológico, isto é, certo aspecto da relação com o mundo, com o outro, com o tempo e com o próprio corpo.

REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA


SARTRE, Jean-Paul. O ser e o nada - Ensaio de Ontologia Fenomenológica. Petrópolis, RJ: Vozes, 1997.


SILVEIRA, Andréa Luiza da Psicodiagnóstico: a fundamentação epistemológica entre o sistema de categorização, a fenomenologia e o existencialismo. Anais VIII Encontro Catarinense de Saúde Mental, 2009.


SILVEIRA, Andréa Luiza da; CARMINATI, Fábio. Considerações sobre a corporeidade na fenomenologia existencialista de Sartre. Cadernos de Sartre, Fortaleza/CE, v. 1, n. 4, p. 97-111,  2011.

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

A identidade do profissional de psicologia e o diagnóstico psicológico


Andréa Luiza da Silveira
psicóloga - CRP-12/02021
Este breve artigo tem o intuito de informar as pessoas sobre: 1) que os documentos produzidos pelo(a) profissional de psicologia exigem que haja vínculo entre o profissional e a pessoa que o procura; 2) que a produção de um documentos baseia-se em preceitos técnicos e éticos.


A atividade de diagnosticar uma problemática psicológica contempla, por um lado, o saber psicológico e, por outro lado, a identidade do(a) profissional do(a) psicólogo(a). Diagnosticar é, essencialmente, compreender a dinâmica em que o sofrimento do sujeito ocorre. Neste sentido, para além de qualquer movimento político e corporativo - seja o Ato Médico, ou qualquer outro – a atividade de diagnosticar no âmbito da psicologia é do (a) psicólogo (a).
Faz-se o diagnóstico psicológico nas várias áreas da psicologia justamente porque cada uma delas envolve o sujeito e sua dinâmica na comunidade, no hospital, no âmbiente de trabalho, e assim por diante. Mesmo no atendimento individual, as redes em que o sujeito se tece e se constitui, aparecem como parte da solução e da problemática psicológica.
Parece importante lembrar, que a atividade de diagnosticar, realizada pelo profissional de psicologia, leva algumas sessões. Para nós, tal atividade é interventiva, isto é, nas sessões destinadas a compreensão da dinâmica do sujeito o vínculo que está sendo construído entre o(a) profissional e o paciente, por si mesmo, é um agente de mudança. O ‘paciente’ é ativo no processo de se vincular e faz alguma coisa disso, em geral, para lidar com o seu sofrimento e com a dinâmica que o sustenta.
O psicólogo produz documentos como a declaração, o parecer, o atestado e o laudo psicológico. Casa um deles atende a certos fins e necessita de certos dados para serem confeccionados. Equivale dizer que, um documento desta ordem, se constói a partir da atividade profissional fundamentada na ciência psicológica.
É muito importante que a pessoa que procura o(a) psicólogo(a)  para obter um laudo, um atestado etc, saiba das implicações técnicas e éticas da produção de um documento. Apenas para exemplificar podemos citar um preceito técnico, o número de sessões vai exceder a apenas uma sessão. E um preceito ético, é que o(a) profissional vai atestar o que foi verificado. 
Pensamos que a informação adequada pode propiciar que as pessoas usufruam muito mais da psicologia como ciência e como profissão. Por isso, sugerimos que, para dirimir qualquer dúvida, se consulte a “RESOLUÇÃO CFP N.º 007/2003  que Institui o Manual de Elaboração de Documentos Escritos produzidos pelo psicólogo, decorrentes de avaliação psicológica.” (Conselho Federal de Psicologia - CFP, 2003).  








sábado, 11 de junho de 2011

Aspectos psicossociais do processo saúde doença no trabalho

Andréa Luiza da Silveira
psicóloga  - CRP-12/02021

Bom dia a todos e todas.
Hoje pretendo discutir os aspectos psicossociais do trabalho e importância de sua discriminação e compreensão para se pensar, planejar e executar soluções para se superar o adoencimento no trablho, ou pelo menos, melhorar as condições de trabalho.
Gostaria de agrader a ANAMT e, em especial ao Dr. Carlos Campos, o convite para falar sobre os “Aspectos psicossociais do processo saúde_doença no trabalho”. E gostaria de agredecer também a Dra. Isabel Amorim, quem me fez o convite inicialmente.
Bem, eu sou psicóloga, atualmente atuo como professora da Unochapecó e como psicóloga clínica. Fiz meu mestrado em Engenharia de Produção na Universidade Federal de Santa Catarina e abordei como tema central a prevenção às doenças ocupacionais. Por um lado eu tenho muita afinidade acadêmica com o tema que me proponho a apresentar hoje e por outro ele é um tema que me mobiliza muito. Este tema me mobiliza por ser o trabalho uma relação que promove mais adoenciemento do que saúde. O trabalho é um tipo de relação que as pessoas estabelecem umas com as outras, com uma atividade socialmente necessaria para a reprodução da própria vida e também uma relação que as pessoas estabelecem consigo mesmas, parafraseando Marcurse “o trabalho é uma categoria ontológica constitutiva do ser do sujeito.” A reflexão aqui é a seguinte “Ora, se o trabalho promove o sofrimento em vez da felicidade. Que sujeito está se constituindo pelo trabalho?.
É importante considerarmos, primeiramente, que os aspectos psicossociais, isto é, os aspectos sociais, sociológicos e psicológicos do processo saúde doença no trabalho, estão amarrados uns aos outros, isto quer dizer que é extremamente dificil compreender um sem entender o outro. Então,o meu intuito aqui é refletir sobre como um destes aspectos é interveniente ao outro. Ou seja, como uma problemática ou um recurso social atravessa e é influenciado por problemáticas e recursos de órdem psicológica.
Os aspectos sociais implicados no trabalho são aqueles diretamente atravessados pelo conflito capital trabalho no modo de produção capitalista. Isto se resume da seguinte forma “as necessidades do capital, impõem a classe trabalhadora um modo de vida que atende as necessidades da classe proprietária dos meios de produção. Como por exemplo o ritmo acelerado de produção. Este ritmo acelerado não é uma necessidade de quem trabalha, pois certamente a consequencia é o adoecimento e, obviamente, ninguém alimenta o desejo de adoecer. O ritmo acelerado, que transcende e muito os limites da corporeidade humana, é sim, uma necessidade da classe que usufrui dos resultados do trabalho, que apropria os resultados do trabalho na forma de lucro. Esse conflito é inerente as relações de trabalho e com ele temos que lidar até enquanto ele existir.
Mas, esse conflito capital trabalho se reflete também nas condições de vida e de saúde da sociedade. Então, os apectos sociais de saúde e doença no trabalho são aqueles que verificamos no modo de vida das pessoas, isto é, os aspectos sociais do adoecimento podem ser obeservados na configuração da comunidade em que o trabalhador vive e nas condições de vida da família, ou seja, do lazer, da educação, do transporte, da segurança e da alimentação. Não é por acaso que a lei orgânica 8080 estabelece que a saúde, além do bem estar psicológico e físico das pessoas, envolve a totalidade de suas condições de vida. Ela refere às condições adequadas de trabalho, moradia, meio ambiente, saneamento básico, renda, educação, transporte, lazer e o acesso aos bens e serviços essenciais a vida. Podemos concluir, que o a saúde passa pela organização social e econômica do nosso país. Neste sentido, uma vivência pessoal de estar saudável ou doente também é atravessada por um fenômeno social.
Outro ponto relevante são os aspectos sociológicos do trabalho. Isso porque o suporte social do grupo, melhor dizendo, o tecimento de uma pessoa com grupos sejam estes família, amigos, colegas de trabalho também é fundamental para a constituição adequada do sujeito. Quero dizer, um sujeito seguro e autônomo. Neste ponto podemos pensar sobre a forma como o trabalho é organizado nas organizações e como ele possibilita ou inviabiliza a qualidade do tecimento da grupo familiar e os projetos pessoais do trabalhaor. A divisão de trabalho em turnos é um exemplo do trabalhador que dispões de uma temporalidade dirente para a convivência familiar, então, enquanto ele está dormindo os filhos estão na escola etc. Quando ele chega em casa do trabalho a família está dormindo e nos fins de semana ele se encontra fatigado. Assim, o tecimento familiar pode fragilizar-se. Podemos usar o estresse como exemplo. O estresse esta relacionado ao tipo de vínculo existente entre os colegas de trabalho e clientes, com a atividade de trabalho e seu impacto sobre a saúde do trabalhador e com a expectativa sobre os resultados do trabalho. Entre essas expectativas podemos mencionar o atendimento de qualidade ao público, o gerênciamento de equipe que envolve lidar e resolver conflitos, atingir metas, ritmo acelerado de produção, falta de controle do trabalhador sobre a sua atividade profissional etc. Neste sentido, para que não ocorra o estresse, é importante que a equipe que trabalha junto esteja preparada para lidar com as situações de conflito nas relações humanas no trabalho e as dificuldades referentes à organização do trabalho. É preciso ter uma iniciativa individual em prol de um modo de vida com mais qualidade mas também é necessária uma atitude positiva do próprio grupo que trabalha em conjunto. É mediante relações humanas que primam pela ética, segurança e autonômia que as pessoas conseguem estar com as outras sentindo-se seguras e confiantes. O ambiente de trabalho promove bons e maus encontros entre as pessoas. Um ambiente cheio de conflitos, como aqueles conhecidos como Assédio Moral, por exemplo, só pode gerar experiências pessoais de insegurnaça, desespero e num grau mais elevado, de sofrimento, a depressão.
Vimos que as relações de trabalho no seio da organização ligam-se às características das relações sociais, econômicas e políticas da sociedade abrangente. Portanto, ao se abarcar os aspectos culturais da organização, que incluem os aspectos sociológicos e psicológicos e a política interna, ao nível da pesquisa e do conhecimento, deve-se levar em conta “[...] o espaço social e político em que se realiza: a organização do processo de trabalho, a elaboração das políticas administrativo-organizacionais e a prática cotidiana dos agentes sociais desta relação. Isto significa redirecionar o modo de pensar as relações do trabalho em algumas de suas principais instâncias” como já disse Rosa Maria FISCHER no seu excelente texto 'Pondo os Pingos nos IS' - sobre as relações do trabalho e políticas de administração de Recursos Humanos.
As condições de trabalho atendem, antes de tudo, a obtenção do lucro e manutenção do poder, sendo que, desta forma, o trabalho torna-se ainda mais desgastante tanto física quanto psicologicamente ao trabalhador, visto que o lucro está embutido no tempo excedente de trabalho e o poder se conquista a custo das relações humanas. Desta formar, pode-se afirmar que a ocorrência de acidentes e doenças ocupacionais pode ser, certamente, uma expressão relevante das políticas internas em convergência com o contexto socioeconômico do qual a organização participa.
Por conseguinte, as políticas públicas, as organizações e os Estados pendem ora cá ora lá na relação conflituosa entre capital-trabalho. Da mesma forma, pendem neste ‘jogo de forças’ as produções de conhecimento científico em geral e na área da saúde e trabalho em particular
O conhecimento produzido pela área da saúde do trabalhador, ergonomia, sociologia do trabalho e psicologia do trabalho, é passível de ser apropriado muito mais pelos donos dos meios de produção, pelas diretorias de organizações, que mais facilmente tem acesso a ele e muitas vezes por ele pagam. Mesmo que seja evidente que uma técnica como o desenvolvimento de um programa de prevenção às doenças ocupacionais, pode ser utilizada ética e politicamente da forma que melhor se aprouver, uma mudança cultural na relação com o trabalho para ser eficaz tendo como resultado a manutenção da saúde, necessariamente deve ocorrer com o trabalhador e estender-se os todos setores da organização.
Acontece no desenvolvimento de programas nas organizações a falta de engajamento dos trabalhadores, apesar de sofrerem com acidentes e doenças ocupacionais. Mesmo que os objetivos do programa estejam pautados na superação das situações de desgaste, em virtude das condições de trabalho que são, amiúde, observadas. Mas os trabalhadores não vêm o programa da mesma forma de que aqueles que estão desenvolvendo-no, sobretudo se quem o desenvolve é contratado pela alta administração. É preciso intervir nas organizações levando em conta as necessidades do conjunto da organização, portanto, levando em conta a voz dos trabalhadores de todos os quadros hierárquicos. Cabe afirmar a importância de compreender-se os aspectos psicológicos inerentes ao engajamento dos trabalhadores e ao sentido do trabalho, sendo que, para tanto, há a necessidade técnica da delimitação dos aspectos sociológicos que implicam, por sua vez, também a política adotada na organização.
Aliado ao desenvolvimento técnico e científico que proporciona avanços na elaboração de instrumentos de trabalho para a industria moderna e contemporânea e para o setor de serviços, há avanços igualmente na organização do trabalho muitas vezes através das políticas de Recursos Humanos. Históricamente, a organização do trabalho faz-se como uma estratégia brilhante dos industriais e seus técnicos para aumentar a produção, isto é, produzir mais em menos tempo, intensificando-se o trabalho. No entanto, produzir mais e mais rápido em um tempo menor teve conseqüências para a vida dos trabalhadores e para o processo de produção. Uma delas é a reação dos trabalhadores em aceitar certas mudanças, mesmo que positivas para eles.
A política interna da organização necessariamente converge com uma política mais geral seja a política mundial que é mais proeminente em tempos de globalização, seja ela com característica peculiares a do país a que se aplica. Para exemplificar podemos utilizar um exemplo citado por BRAVERMAN no seu livro Trabalho e capital monopolista degradação do capital no século XX. Ele discute a demissão dos empregados da Ford pela inserção da “esteira transportadora”. Com esta nova maquinaria ocorre um aumento da intensidade do trabalho nos moldes como a compreende Alain WISNER. Neste período havia oferta de emprego no mercado que possibilitava que os trabalhadores insatisfeitos com a nova organização do trabalho e aqueles demitidos optassem por uma industria automobilística que adotasse ainda o antigo processo de trabalho, ou seja, sem a estreira transportadora. Logo em seguida a Ford desenvolve uma política interna que objetivava manter os seus funcionários que estavam insatisfeitos com as inovações proporcionadas pela esteira transportadora. Assim, deu-lhes um considerável aumento de salários e variadas premiações que logo foram adotadas pelas demais indústrias automobilísticas que também introduziram a esteira transportadora ao seu processo de trabalho. No entanto, logo que as industrias automobilísticas equipararam-se na utilização da tecnologia as premiações foram suspensas. Por conseguinte, os colaboradores tiveram que se submeter ao ritmo e organização do trabalho imposto pelo ‘mercado’, visto que não havia mais opção já que todas as organizações adotavam a esteira transportadora.
O campo de forças entre capital-trabalho pode ser observado no interior das organizações pelas convergências e divergências da organização do trabalho. Isto, tanto no que se refere à adoção de novos processos a partir de avanços tecnológicos como no caso da esteira transportadora ou da maquinaria computadorizada como no caso do gerenciamento da política interna.
E para terminar a minha fala, gostaria ainda de discutir o processo de adoecimento, prevenção e promoção da saúde levando em consideração os aspectos sociais e sociológicos acima elencados. E ainda, pensar perspectivas de diagnóstico e intervenção a partir da Análise Ergonômica do Trabalho e do desenvolvimento de programas de prevenção às doenças ou de promoção de saúde nas organizações.
            Certamente, todos gostaríamos de que o trabalho fosse promotor de saúde. Mas sabemos que em nossa sociedade ele é muito mais promotor de doenças.Nos perguntamos, em termos efetivos, como isto pode ocorrer? Como o trabalho pode ser promotor de saúde? Michel Foucault, nos estudos sobre a loucura e sobre a clínica nos ajuda a entender que a doença só tem sentido num determinado tempo histórico, numa determinada sociedade e para uma coletividade específica. Podemos refletir ainda sobre o sentido das doenças em geral, do sofrimento psíquico em particular até chegarmos ao seu maior grau que é um transtorno psicopatológico.
            Até o momento temos visto o trabalho como situação que engendra doenças. Isto porque o trabalho tem sido organizado de tal forma em que o sujeito é desconsiderado em sua humanidade e tratado como objeto, isto é, reificado.
            Controla-se o sujeito que trabalha e impõem-se um ritmo de trabalho para o sujeito que trabalha como se este ser humano fosse uma máquina. Até mesmo nos referimos ao ser humano que trabalha como se ele fosse uma máquina. Utilizamos expressões como “o desgaste”, o “estresse”... Exigimos do homem que ele extrapole seus limites humanos e ele arrebenta, estoura, não tem mais conserto. Não podemos consertar um homem como uma máquina pois este sujeito tem uma história, uma biografia que está marcada em seu corpo.
            Uma doença, um problema psicológico não é um defeito, é uma condição existencial que pode ser vivida como sofrimento. Conheço uma mulher, agricultora, que tem um câncer. Vamos considerar que este seja um câncer ocupacional. Sim, ela e seu médico identificam este câncer como ocupacional tendo como base o tipo de agricultura que a família realizava e os produtos químicos que costumava manipular. Mas, ela e a família enfrentam a situação. O câncer é um desafio que ela quer vencer. Afinal, ela quer viver. É neste sentido que digo que a doença pode ou não ser vivida pelo sofrimento ou como neste caso como superação. Contudo, este não é um ponto para ancorar nossas justificativas conservadoras. Apenas um sinal de que há liberdade, há resistência e há criatividade até mesmo nas situações mais difíceis, justamente, por ser esta a nossa condição humana. Parafraseando Jean-Paul Sartre, somos livres até mesmo para agirmos contra nós mesmos. Mas, também eu digo, para agirmos a nosso favor.
            Então, se não conseguimos organizar a nossa sociedade como promotora de saúde nos seus mais diversos perfis nos atemos a prevenção das doenças. No nosso caso especificamente, nos atemos a prevenção das doenças ocupacionais. Regulamos o ritmo de trabalho para que o sujeito não estoure de vez. Regulamos o calor e o ruído. Cuidamos para que o Assédio Moral não predomine. Parece que é o que podemos fazer como profissionais.
            A Ergonomia e a Clínica do Trabalho vem nos dar certos alentos, certas soluções bastante positivas. É preciso compreender a condição de trabalho a partir dela mesma. É preciso entender o processo de trabalho a partir dele mesmo, ou seja, da própria atividade. E também, resgatando Dejours, é preciso compreender o sujeito que trabalha a patir da própria representação que ele faz de si mesmo, dos outros, da organização do trabalho e de sua atividade. E aí nos deparamos com uma antiga contradição que é o próprio sujeito que trabalho que não usa o Equipamento de Proteção Individual, que remove a grade de segurança, que deixa de adotar as medidas preventivas etc. Para compreender estas idiossincrasias e como elas se configuram em cada situação pode-se recorrer a duas metodologias que particularmente considero eficientes. Uma delas é a Análise Ergonômica do Trabalho e a outra é a Clínica do Trabalho.
            A Análise Ergonômica do Trabalho, ao meu ver, possibilita identificar além dos aspectos técnicos do trabalho também os aspectos psicossociais, mais especificamento, os aspectos psicológicos como a ansiedade por exemplo. Demarca-se como importante iniciar a descrição visando ao processo de trabalho, isto é, seus instrumentos, seus fins e a própria atividade de trabalho. Neste ponto, os fenômenos de ordem psicológica passam a ser tangíveis e principalmente sua relação com os outros aspectos que compõem, invariavelmente, as mais diversas situações de trabalho. Em cada caso uma dimensão psicossocial importante pode ser identificada: a sobrecarga do trabalho, ressaltando a carga psíquica; a dimensão do futuro para a efetividade da atividade de trabalho, entre outras. Entretanto algo há de comum em todas as situações e que precisam ser observadas. Em primeiro lugar, a relação com os outros  (cliente, chefes, membros da equipe). Em segundo lugar, a relação com o tempo (histórico profissional e perspectivas de futuro). Em terceiro lugar, a relação com o mundo (instrumentos de trabalho, exigências das atividades). E, finalmente, a relação com o próprio corpo (fadiga, dor, conforto). A Análise Ergonômica do Trabalho visa à mudança da situação problema adaptando o trabalho ao homem, para tanto parte-se de dois princípios deontológicos: a verificação da verbalização do trabalhador e a saúde de quem trabalha.
A Análise Ergonômica do Trabalho pode integrar como metodologia de diagnóstico um programas de prevenção às doenças ocupacionais e aos acidentes de trabalho. Reconhecidamente têm se demarcado na literatura científica especializada duas questões precípuas . Uma delas é que o programa deve estar vinculado à política geral da organização. E a outra questão é que o diagnóstico e a intervenção sobre a cultura organizacional são necessários para que o programa atinja seus objetivos. Outro fator fundamental para o sucesso de Programas que visam a prevenção à doenças ocuapacionais e quem sabe até de promoção de saúde nas organizações é a avaliação de resultados. Para a análise crítica dos resultados do programa, sugere-se: 1) resgate histórico do programa; 2) considerar o ponto de vista de equipe que coordena o programa, e 3) avaliar o program junto aos participantes das atividades. Por fim, a bibliografia especializada sobre crítica de resultados de programas indica que que a coordenação do programa deve elaborar a sua própria política,  articula-la junto a política da organização e compreender os seus limites tendo em vista as condições sociais mais gerais e a cultura organizacional.
            Agradeço a atenção de todos e espero ter contribuído para a reflexão crítica e para a efetividade da atividade profissional de todos nós da área da saúde do trabalhador.

Palestra proferida no Simpósio sobre Ergonomia organizado pela Associação Nacional de Medicina do Trabalho - ANANT - em Chapecó, 2011.
Veja também:
III Congresso Brasileiro de Psicodinâmica e Clínica do Trabalho e o IV Simpósio Brasileiro de Psicodinâmica do Trabalho
23, 24 e 25 de Outubro de 2013 - Em Gramado - RS
            

domingo, 24 de abril de 2011

PREVENÇÃO DO ESTRESSE NAS ATIVIDADES PROFISSIONAIS

Andréa Luiza da Silveira
CRP-12/02021

O trabalho é tão importante na nossa vida que o perfil de ser trabalhador faz parte de nossa personalidade. Quando nos apresentamos ou somos apresentados para alguém logo surge como forma de reconhecimento a atividade profissional. Desta forma, quando um problema atinge nossa vida profissional normalmente afeta outros contextos, como as relações familiares, por exemplo. O trabalho é mediador de integração social tanto pelo valor econômico quanto pelo valor sócio-cultural que ele tem, o que demonstra sua influência na nossa saúde física e psíquica.
No nosso dia-a-dia podemos conceber o estresse como uma reação do organismo a demandas de ordem física, psíquica, infecciosa, capaz de abalar o bem estar e até originar o “estado de estresse pós-traumático” tal qual está classificado no Código Internacional das Doenças – CID-10. Podemos identificar alguns sinais de estresse: não fazermos mais o que faziamos antes ou aumentar os erros no que fazemos; insatisfação constante; o tempo livre não é mais suficiente para recuperarmos as forças; insônia ou muito sono; irritabilidade; infecções e gripes frequentes; problemas digestivos e intestinais; problemas de pele, cabelos e unhas; diminuição da libido ou impotência; tentativa de relaxamento com álcool, comida ou demais vícios; crises de ansiedade, depressão e pânico etc. Algumas doenças ligadas ao estresse são: hipertensão arterial; úlceras; infecções; diabetes; dores lombares; artrite; alterações psicológicas. Podemos observar que nada do que está escrito aqui é desconhecido, pois tais doenças ligadas ao estresse tem feito parte da vida de muitos de nós. Será que podemos ter um modo de vida mais gratificante ou é assim mesmo e pronto?
O estresse pode estar relacionado ao tipo de vínculo que estabelecemos com os colegas de trabalho e clientes, com a atividade de trabalho e seu impacto sobre nossa saúde e com a expectativa sobre os resultados do nosso trabalho. Entre essas expectativas podemos mencionar o atendimento de qualidade ao público, o gerênciamento de equipe que envolve lidar e resolver conflitos, atingir metas, ritmo acelerado de produção, falta de controle do trabalhador sobre o sua atividade profissional etc. Neste sentido, para que não ocorra o estresse, é importante que a equipe que trabalha junto esteja preparada para lidar com as situações de conflito nas relações humanas no trabalho e as dificuldades referentes à organização do trabalho. É preciso ter uma iniciativa individual em prol de um modo de vida com mais qualidade mas também é necessária uma atitude positiva do próprio grupo que trabalha em conjunto.
Apresentamos o quadro de Di Cavalcanti que representa um grupo de trabalhadores.
A qualidade de vida é conquistada a partir de iniciativas individuais, do grupo e organizacionais. As individuias são aquelas ações que dependem mais da própria pessoa, como ter uma alimentação balanceada, fazer atividades físicas, ter lazer (teatro, cinema, passeios), encontrar formas saudáveis de relaxar (caminhar, alongar, fazer exercícios respiratórios). As atitudes do grupo são aquelas negociadas entre as pessoas, como por exemplo: dialogar, resolver os problemas em conjunto, dividir responsabilidades etc. As ações organizacionais são aquelas que possibilitam as atitudes positivas do individuo e do grupo. Elas envovem as diretrizes da organização em prol da qualidade de vida, como: ritmo de trabalho adequado, horários de almoço e descanso adequados, estratégias de resolução de problemas etc. Atendendo a estes três aspectos: organizacionais, grupais e individuais, certamente, o estresse tende a ser controlado e até mesmo a diminuir. Lembrando que cada um de nós pode fazer a sua parte para prevenir o estresse e promover a saúde de todos. Entretanto, as questões políticas mais gerais necessitam de ações planejadas e executadas pelo coletivo dos trabalhadores.


Obs.: sobre a obra de Di Cavalcanti pesquise http://lumoura.com.br/2008/05/um-pouco-sobre-di-cavalcanti/

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

INFORMAÇÕES BÁSICAS SOBRE PSICOLOGIA E PSICOTERAPIA

Andréa Luiza da Silveira 
Este texto, na forma de perguntas e respostas, objetiva facilitar o entendimento das pessoas sobre a psicologia e a psicoterapia. Vejo como importante divulgar que a psicologia deve oferecer às pessoas um método seguro de resolver a problemática psicológica, baseado na ciência, sendo que o paciente é ativo nesse processo. Portanto, a psicologia não disponibiliza de uma fórmula mágica para a resolução dos problemas. A resolução dos problemas é viável desde que o paciente realize os procedimentos necessários para modificá-los.


O que esperar de uma psicoterapia?
Pode-se esperar a superação do problema psicológico. O aspecto positivo da psicoterapia é que a superação ocorre com segurança, pois o psicólogo age de acordo aos preceitos éticos e científicos que regem a profissão. O paciente tem a tranquilidade de se submeter a um processo iluminado pela psicologia científica, fundamentada em estudos, pesquisas e análises.

Quem é o psicólogo?
É um profissional graduado em psicologia que é uma disciplina científica. O psicólogo, como um profissional que atua como psicoterapêuta, faz parte do Conselho Federal de Psicologia - CFP no âmbito nacional. E no âmbito regional o psicólogo faz parte do Conselho Regional de Psicologia - CRP, no caso de Santa Catarina, CRP-12. Os conselhos devem conhecer, divulgar, regular, orientar e fiscalizar a atividade profissional do psicólogo. O psicólogo deve atuar segundo os preceitos da psicologia como ciência e profissão. Qualquer pessoa pode acessar o código de ética do psicólogo via internet.

O psicólogo clínico pode dar receitas médicas ou receitar algum remédio ou substâncias como florais?
Não. O  trabalho do psicólogo é baseado em entrevistas, diagnóstico psicológico, esclarecimento da problemática psicológica e mediação para que o paciente compreenda e transponha essa problemática. O paciente é ativo no seu próprio processo de superação da sua problemática psicológica.
As técnicas psicológicas, instrumentos de medidas psicológicos e testes psicológicos que o psicólogo utiliza são avaliados e validados pelo Conselho Federal de Psicologia. Portanto, o psicólogo está habilitado a empregar tais técnicas e testes para diagnosticar e intervir com segurança para a transposição do problema psicológico.
O que é psicoterapia?
A psicoterapia é um conjunto de técnicas psicológicas fundamentadas por uma teoria psicológica. Uma teoria psicológica é desenvolvida a partir de estudos teóricos, pesquisas e de análises reflexivas sobre a prática da psicologia. Esta prática da psicologia tanto ocorre nas instituições como escolas, hospitais, empresas, como no consultório de psicologia. A psicologia clínica é uma das áreas de atuação do psicólogo. E a psicoterapia é uma das possibilidades de atuação do psicólogo dentro da área da psicologia clínica.

O que faz o psicólogo no processo psicoterapêutico?
Desenvolve seu trabalho para mediar a pessoa na superação de seu problema psicológico. Na psicoterapia um relacionamento se estabelece  entre o psicólogo e o paciente. Esta relação envolve um processo que tem inicio, meio e fim. Parte de problemas trazidos pelo paciente e finda com a superação destes problemas. Mas, para se atingir tais fins, isto é, a superação dos problemas sofridos pelo paciente, é necessario o comprometimento no processo psicoterapêutico tanto por parte do psicólogo como por parte do paciente.
Qual o compromisso do psicólogo?
O compromisso do psicólogo é atuar de acordo aos preceitos da psicologia como ciência e profissão. Agir de acordo a ética profissional e a fundamentação teórica e metodológica da psicologia.
Quais compromissos que o paciente tem com o seu processo psicoterapêutico?
O compromisso básico de ambas as partes é estarem presentes nos horários e dias marcados. É preciso haver continuidade das sessões, de acordo com o que foi combinado entre o psicólogo e o paciente. Isto porque a psicoterapia é um processo conduzido pelo psicólogo para atingir os fins que o paciente trouxe. A psicoterapia é um processo, e como tal, é continuo e leva algum tempo. Além de ser um processo, a psicoterapia envolve ações do paciente para viabilizar a superação do seu problema psicológico, portanto, é um processo ativo, em que o paciente deve estar comprometido, disposto a agir para modificar o contexto do seu sofrimento.

É possível transpor o problema psicológico?
Sim é possível. É possível superar um processo depressívo, a tristeza, a fadiga, a timidez ou as dificuldades de relacionamento etc. O objetivo geral de qualquer processo psicoterapêutico é a superação do problema trazido pelo paciente. Mas os objetivos de cada paciente são diferentes e devem ser esclarecidos. Para se esclarecer os objetivos, ou seja, para onde e como o paciente deseja se encaminhar, é importante realizar um diagnóstico que configura a problemática do paciente. Esta fase inicial do processo psicoterapêutico resulta na compreensão do paciente sobre a sua problemática. Mas, algumas ações já devem ter sido encaminhadas para a superação desta problemática que envolve certo sofrimento do paciente.

O psicólogo vai dizer o que o que o paciente deve fazer?
Não. O paciente encontra segurança para fazer suas próprias escolhas críticas mediante a análise reflexiva de sua própria história e o mapeamento de suas possibilidades frente a um campo de possíveis. Assim, o paciente reflete sobre suas experiências para orientar seu projeto de ser realizando o seu desejo de ser.

O psicólogo só trabalha em função de uma problemática psicológica?
Sim. Entretanto existem situações de dúvida em relação a carreira, por exemplo, em que a pessoa se encontra perante várias possibilidades e precisa escolher. Mas, apesar de ser uma situação positiva, em que a pessoa não se encontra em sofrimento, ela precisa de auxilio para refletir. Então, o psicólogo pode desenvolver com a pessoa uma orientação profissional - no caso de escolha da carreira, re-orientação profissional - no caso da pessoa estar atuando profissionalmente mas desejar rever algumas escolhas.

A psicoterapia tem um fim?
Sim. O próprio paciente vai identificando, ao longo do processo psicoterapêutico, as suas conquistas e realizações. Neste sentido, o paciente mesmo verifica que o processo psicoterapêutico está findando, pois ele próprio entende que superou a problemática psicológica que o levou à psicoterapia.

segunda-feira, 30 de agosto de 2010

Saúde, Família e Comunidade

Andréa Luiza da Silveira

Este texto foi publicado na Folha de Coqueiros edição de julho. A Folha de Coqueiros é um jornal publicado em Floriaópolis/SC.


A saúde, como rege a Constituição Federal, é direito de todos e dever do Estado. Entretanto, para que isso possa ocorrer, é importante perguntar: o que entendemos por saúde?
A saúde, além do bem estar psicológico e físico das pessoas, envolve a totalidade de suas condições de vida. Ela refere-se às condições adequadas de trabalho, moradia, meio ambiente, saneamento básico, renda, educação, transporte, lazer e o acesso aos bens e serviços essenciais a vida, isto é, a saúde passa pela organização social e econômica do nosso país. Mas, como isto se realiza na prática?
No Brasil, nós temos o Sistema Único de Saúde - SUS - cujas portas de entrada são as Unidades Básicas de Saúde, também conhecidas como postos de saúde. Estas unidades estão destinadas a oferecer ações em saúde a determinado território. Nelas atuam, geralmente, equipes de Saúde da Família. Atualmente, o foco da atenção em saúde é a família. Assim, temos uma proposta de saúde implementada através da constituição de 1988 que nos leva a pensar na relação entre saúde, família e comunidade, tendo visto que a atual política nacional de saúde prioriza a saúde da família.
A Estratégia da Saúde da Família implica uma abordagem comunitária, em que os profissionais de saúde vão até os locais de moradia e convivência, buscando a promoção, a prevenção e encaminhando a reabilitação da saúde. Na contramão do individualismo em que as pessoas estão cada vez mais isoladas, a política de estado da saúde fomenta o que é importante para o coletivo.
Há, então, uma política de saúde, resguardada pela Constituição Federal, que prima pelo bem comum. Um dos aspectos da promoção da saúde é a viabilização da atividade física. Neste sentido, é muito importante o estabelecimento de espaços públicos como praças, parques, ciclovias etc. Do ponto de vista da psicologia, a convivência nos espaços públicos também beneficia a saúde mental. Essa convivência diminui a solidão, que é uma das principais causas do problema psicológico - loucura ou doença mental -, pois coloca para as pessoas a possibilidade de realizar-se junto com os outros.
Os espaços para a prática de esportes, para caminhar e pedalar, permitem o encontro entre as pessoas. As atividades que integram a comunidade e a família na comunidade abrem um campo de possibilidades de bons encontros. Nestes encontros realizam-se sonhos políticos, artísticos, profissionais, intelectuais e afetivos em que as pessoas acham em outras apoio e mediação. Esses encontros criam solidariedades e permitem compartilhar projetos e ser com o outro. E não contra o outro, como ocorre quando imperam o individualismo, a competitividade, a sede de poder e sucesso e a posse do outro. Portanto, as ações que revelam valores que servem para unir devem ser muito mais viabilizadas do que aquelas que servem apenas para separar.
O que é saúde? Ë o bem estar físico, psíquico e social, como define a Organização Mundial de Saúde – OMS. Mas, também, saúde é conquistar um ambiente de trabalho, lazer, moradia, educação e transporte adequado a uma vida com dignidade. E relações humanas em que as pessoas possam estar com as outras sentindo-se seguras e confiantes. Ora, não podemos esperar que uma sociedade fragmentada seja constituída por famílias bem estruturadas. Existem problemas na família tanto quanto no seu entorno. Se precisamos resolver os problemas no seio das famílias é por que temos muitas questões de ordem social a resolver.
Em nosso bairro temos espaços públicos de convivência e atividade física constituídos muito raros de se ver na maioria dos bairros da cidade. Certamente, manter e preservar o espaço público de bons encontros é uma forma de promover a saúde das pessoas. Vamos preservar o que temos e, quem sabe, ampliar!



sábado, 6 de março de 2010

ESBOÇO DA METODOLOGIA DA PSICOTERAPIA EXISTENCIALISTA

Andréa Luiza da Silveira


Psicoterapia é um conjunto de procedimentos técnicos teoricamente fundamentados. A psicoterapia se inicia no primeiro encontro entre psicólogo e paciente. Nas primeiras sessões de psicoterapia, quando ocorrem as entrevistas iniciais, o psicólogo realiza o diagnóstico. O diagnóstico parte dos motivos pelos quais o paciente procura psicoterapia e finaliza com o esclarecimento sobre a dinâmica de personalidade do paciente, sobretudo, os aspectos que inviabilizam a realização de seu desejo de ser.
O processo psicoterapêutico possibilita que o paciente se localize frente os aspectos da sua dinâmica de personalidade que lhe inviabilizam e assim, pode modificar o seu projeto de ser. O processo psicoterapêutico comporta também orientação para que o paciente consiga agir para modificar a figura do mundo, isto é, transformar sua realidade e a situação que o faz sofrer. A psicoterapia ajuda a pessoa a encontrar os meios para agir e modificar sua realidade.
O objetivo da psicoterapia é que o paciente possa agir para modificar elementos da situação mais também modificar-se. Para chegar a este ponto é preciso primeiramente, delimitar o problema e ter claro quais são as dimensões em que as suas dificuldades aparecem, no amor, trabalho, estudos e família.
Neste ponto do processo psicoterapêutico delimita-se as qualidades, estados e ações que inviabilizam o paciente. É a fase da psicoterapia em que o paciente verifica as suas características que contribuem para a ocorrência dos problemas detectados no primeiro momento: timidez, apatia frente a situações que se repetem, não lembra das coisas, espontaneidade, falta de concentração, depressão etc.
É necessário descrever as situações em que as dificuldades ocorrem, sempre em função do futuro almejado. A descrição é a técnica mais importante da intervenção terapêutica e abarca o tempo (passado, presente e futuro), o mundo (organização sociopolítica das coisas), os outros e o corpo.
Os temas na descrição abarcam:
1.O Tempo - quando se iniciou o motivo que o fez procurar a psicoterapia, ocorrências históricas significativas da vida pessoal, como é organizado o dia/horas, antecipações, em função de que antecipou, mudar e resolver impasses para que futuro, como as situações problema revelam uma perspectiva de futuro que não é o almejado.
2. O Mundo - a organização sócio política do seu espaço físico.
3. O Corpo – como está sendo vivenciada fisiologicamente as situações problema: tremor, dor, lágrimas, músculos tesos. Em distúrbios alimentares verifica-se como ocorre a insatisfação com o corpo, o corpo almejado etc.
4. Os Outros – com quem, quantas pessoas, quem são, quem é, a importâncias desta (s) pessoa na sua vida.
Finalmente é possível localizar os aspectos psicológicos na situação e a experimentação psicofísica mediante certas escolhas e reflexões. Desta forma o paciente pode compreender a situação problema, encontrar soluções possíveis e modificar o seu futuro. Na ação o paciente reconhece uma falta objetiva, ou seja, a recorrência em que as dificuldades aparecem na relação com determinadas pessoas ou/e coisas. Localizando-se disso pode propor para si e para as pessoas mais importantes de sua vida novas atividades, melhoras na atividade atual, formas de realizar a relação com a família, com os amigos, com o trabalho. Portanto, o paciente lança e conquista para si um futuro mais gratificante.


Referência Bibliográfica

SARTRE, J. P. Esboço de uma Teoria das Emoções. Rio de Janeiro: Zahar, 1965.
_________. O Existencialismo é um Humanismo. Coleção Os Pensadores. 3ª ed. São Paulo: Nova Cultural, 1987.
_________. A Transcendência do Ego. Lisboa: Colibri, 1994.
_________. O Imaginário: psicologia fenomenológica da imaginação. São Paulo: Ática, 1996.
_________. O Ser e o Nada: Ensaio de Ontologia Fenomenológica. Petrópolis: Vozes, 1997.
_________. Crítica da Razão Dialética. Petrópolis: Vozes, 2001
SCHNEIDER, Daniela. Novas perspectivas para a psicologia clínica: um estudo a partir da obra "Saint Genet: comédien et martyr" de Jean-Paul Sartre. Tese de Doutorado. São Paulo: PUC/SP, 2002.
SZASZ, T. A Fabricação da Loucura. 3ª ed. Rio de Janeiro: Zahar, 1978.
_________ . O Mito da Doença Mental. Rio de Janeiro: Zahar, 1979.
VAN DEN BERG, J. H. O Paciente Psiquiátrico: esboço de psicopatologia fenomenológico. São Paulo: Mestre Jou, 1981.